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O Jejum é Um Meio Pelo Qual Somos Iluminados Pela Graça

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    Resposta Ortodoxa
  • há 9 horas
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"Na cadeira de Moisés se assentam os escribas e fariseus. Portanto, tudo o que vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e não praticam." — Mateus 23.2,3

Há uma confusão na correlação da prática religiosa com a figura do fariseu. Não é incomum muitas pessoas imaginarem o fariseu como uma pessoa muito religiosa e estritamente zelosa em suas práticas, atribuindo a qualquer pessoa mais “religiosa” o rótulo de fariseu, “zelota” ou “radical”; como algo objetivamente negativo.


Nesse entendimento, o contraponto geralmente é a ideia de uma prática quase libertária, de uma adesão morna, meramente sentimental e que exclui a prática, interpretada somente como “regras vazias”. É uma inversão da ideia da práxis religiosa que tem raízes num pensamento modernista, onde a religião e todas as características de culto são enxergadas sob o prisma do obscurantismo e de práticas ultrapassadas.


Geralmente é dessa forma que o meio secular enxerga a religião, e quando é conveniente a expressão de alguma fé, sempre é apresentado algo esterilizado, limpinho e embalado para consumo de um mercado religioso, onde pode-se escolher qualquer uma que seja conveniente ou valorize algum estilo de vida. Dogmas são evitados. Reinvindicações de algum exclusivismo no ensino são mal vistos ou interpretados como radicalismo ou algo de “seita”.


A prática religiosa moderna carece de convicções, algo diametralmente oposto do espírito da Ortodoxia. E nisso, a figura do fariseu é vista como aquele que observa criteriosamente a fé ou busca seguir as normas da sua fé. Talvez a confusão tenha origem na má compreensão da Parábola do Fariseu e do Publicano, onde o fariseu aponta todos os seus feitos e humilha o publicano.


No entanto, o que a parábola nos mostra é que o fariseu estava se exibindo de dizer que fazia algo, ao passo que o publicano reconhecia seu próprio pecado em arrependimento e humilhação. Em nenhuma parte dos Evangelhos Jesus reprova a prática religiosa ou a observância estrita da fé. Ele reprova, na verdade, a hipocrisia dos fariseus e a sua incredulidade. Quando ensinavam, mas eles mesmos não praticavam. Ou quando praticavam, mas em seus corações não criam naquilo.


Vemos nesta passagem de São Mateus que Jesus reconhecia a dignidade espiritual dos fariseus, tendo-os como verdadeiros intérpretes das Escrituras quando afirma que eles estavam assentados na cátedra de Moisés. Que os discípulos deveriam fazer e observar o que eles ensinavam, mas não imitar as suas práticas, pois diziam e não faziam.


Neste período de Quaresma somos chamados à praticas espirituais como o jejum, o arrependimento e a oração. Surge, entretanto, daqueles que confundem a figura do fariseu, a condenação da observância do jejum como “radicalismo” ou “práticas vazias”, como se a observância estivesse em oposição ao arrependimento genuíno. Como Cristo ensinou: “Deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas.” [Mateus 23:23]


A Santa Grande Quaresma chegou. Atentemos para os ensinamentos espirituais dos anciãos e ascetas de piedade do século XX acerca deste tempo repleto de graça.


Santo Iakovos Tsalikis:


"O jejum é um mandamento de Deus. Por isso, meus filhos, também devemos jejuar. Não negligenciei o jejum em meus 70 anos de vida. Minha mãe me ensinou a jejuar desde criança. Não estou sendo hipócrita, meus filhos, quando jejuo, mas estou fazendo o que meus pais me ensinaram e o que mantenho até hoje, meus filhos. O jejum nunca me causou nenhuma doença.

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Jejuemos, meus filhos, não deem ouvidos àqueles que dizem que o jejum não é nada e que isso é coisa de monges. Isso não é coisa de monges, meus filhos, perdoem-me, Deus diz isso. O primeiro mandamento de Deus é o jejum, e nosso Cristo jejuou."



São João de Kronstadt:


Não comer laticínios e carne durante a Quaresma é muito importante.

As pessoas dizem que não é uma questão de importância se você comer carne durante a Quaresma, pois a Quaresma não consiste em comida; que não é questão de importância se você usa roupas caras e finas, frequenta teatros, festas noturnas, bailes de máscaras; se você se provê de pratos caros, porcelanas, móveis, equipamentos caros, cavalos vigorosos; se você acumula e guarda dinheiro, etc.

 *

Mas o que é que afasta o nosso coração de Deus, a Fonte da vida; por que perdemos a vida eterna? Não é pela gula, pelas roupas caras, como o homem rico do Evangelho? Não é pelos teatros e bailes de máscaras? O que é que nos torna insensíveis aos pobres e até mesmo aos nossos próprios parentes?

Não é o nosso apego aos prazeres carnais em geral, à nossa barriga, às roupas, aos pratos, aos móveis, às carruagens, ao dinheiro, etc.? Pode um homem servir a Deus e a Mamom (Mateus 6:24), ser amigo de Deus e amigo do mundo, trabalhar para Cristo e para o Diabo? É impossível.

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Por que Adão e Eva perderam o Paraíso, por que caíram em pecado e morte? Não foi apenas por causa da comida? Consideremos bem o que nos torna descuidados com a salvação de nossa alma, que custou tão caro ao Filho de Deus; o que nos faz acrescentar um pecado ao outro; o que nos faz cair continuamente em oposição a Deus, em uma vida de vaidade. Não é o apego às coisas terrenas, e especialmente aos prazeres terrenos? O que torna nosso coração insensível? O que nos torna carnais, e não espirituais, pervertendo nossa natureza moral? Não é o apego à comida, à bebida e a outros bens terrenos? Como, depois disso, pode-se dizer que comer carne durante a Quaresma não é importante?

Dizer isso não é nada além de orgulho, sofisma, desobediência, falta de submissão a Deus e afastamento Dele.


Arquimandrita Kirill (Pavlov):


A Santa Igreja Ortodoxa nos ordena a preservar a santa abstinência, espiritual e física, ao longo destes quarenta dias. Nós, que fomos prejudicados pelo pecado, somos curados pelo arrependimento, e o arrependimento sem jejum não é eficaz. A Igreja uniu o pranto pelos nossos pecados ao jejum, pois isso dá asas ao nosso arrependimento e o eleva ao Trono de Deus.

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O trabalho do jejum é sagrado e bastante antigo. O jejum não é uma invenção recente, mas um tesouro dos nossos antepassados. Tudo o que se distingue pela antiguidade é digno de honra. Respeite os cabelos grisalhos do jejum; ele é tão antigo quanto o próprio homem. O jejum foi instituído como lei no paraíso. A própria existência no paraíso era uma imagem do jejum, pois, contentando-se com pouco, aqueles que ali viviam não consumiam vinho nem carne, que obscureciam a mente humana. Se desejas que teu espírito seja forte, refreia-o com o jejum.

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O jejum é o bom guardião da alma, companheiro fiel do corpo e escola dos ascetas. Ele afasta as tentações; é companheiro da sobriedade e da castidade. O jejum envia nossa oração ao Céu, como que criando asas para sua ascensão. O jejum é a mãe da saúde, a educação da juventude, o adorno dos mais velhos, o bom companheiro de viagem, um companheiro fiel dos cônjuges. O marido não suspeita da infidelidade conjugal da esposa, vendo que ela está acostumada a jejuar. A esposa não é consumida pelo ciúme, sabendo que seu marido aprendeu a amar o jejum.

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O jejum não precisa se limitar à abstinência de alimentos, pois o verdadeiro jejum é o afastamento das más ações. Perdoe ao seu próximo qualquer ofensa, abstenha-se de ofendê-lo, abstenha-se da irritação, de tristezas sem sentido, do medo, da ira e assim por diante.

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“O verdadeiro jejum é o afastamento do mal, a temperança da língua, o abandono da ira, o exílio da luxúria, da conversa fiada, da mentira e da quebra de juramentos” (segundo sticheron das Vésperas, segunda-feira da primeira semana da Quaresma). Este é um jejum verdadeiro e agradável ao Senhor. Afastar-se desses vícios e de um estado de corrupção é o que constitui um verdadeiro jejum. E, antes de tudo, precisamos nos atentar para controlar nossa língua e refreá-la. É um membro pequeno, mas se não a refrearmos, ela nos arrastará todos os dias do jejum pelos desertos da falsidade, da calúnia, do julgamento e da maldade. Também precisamos nos atentar para erradicar todo ódio e aversão ao nosso próximo e nos esforçar para sermos, em tudo e com todos, gentis, mansos, humildes, condescendentes e amorosos.

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Procuremos passar estes dias em abstinência, de acordo com as nossas forças, e em perfeição, pureza e piedade cristãs, esforçando-nos por nunca ofender o nosso próximo em palavras ou ações, procurando sempre adquirir amor uns pelos outros.


Hegúmeno Nikon (Vorubiev):


Os acatistos, os serviços divinos, as orações e os jejuns — tudo isso é oferecido para ajudar a pessoa a expulsar de si toda impureza e a tomar a cruz da luta contra o pecado.

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“Enquanto jejuamos fisicamente, irmãos, jejuemos também espiritualmente…” Para os doentes, os fracos e os idosos, não há jejum corporal — além disso, muitas vezes é prejudicial para eles. A ênfase deve ser colocada no jejum da alma: refrear os olhos, os ouvidos, a língua, os pensamentos e assim por diante. Este será o verdadeiro jejum, benéfico para todos e em todos os momentos. Já temos pouca força, e o jejum corporal, juntamente com o esgotamento físico, não nos dará forças para o trabalho espiritual.

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Em relação ao jejum: 1. não exagere; 2. não dê rédea solta aos olhos, aos ouvidos ou à língua; 3. não julgue ninguém; 4. leia somente literatura espiritual; 5. viva em paz com todos.

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É necessário praticar o controle dos sentidos corporais. Através deles (especialmente a visão e a audição), a alma se torna confusa; essa confusão se manifesta durante a oração e impede a concentração... É muito benéfico e proveitoso enfatizar esse aspecto do jejum. Da mesma forma, é necessário ressaltar a necessidade de perdoar as ofensas e mostrar misericórdia para com todos.

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Jejum, oração, vigílias e outros trabalhos podem não apenas ser prejudiciais, mas até mesmo destruir uma pessoa se forem realizados incorretamente. E tais trabalhos são realizados incorretamente quando levam a uma alta opinião de si mesmo e ao orgulho.


Hegúmeno Savva (Ostapenko):


Considere-se indigno de jejuns prolongados e longas vigílias. Em nossa era do átomo e da química, tais feitos, antes alcançáveis ​​pelos ascetas dos primeiros séculos, já não são adequados. Além disso, as façanhas físicas exteriores tendem a cultivar na pessoa a vaidade e o orgulho — as paixões mais destrutivas.


Somente a humildade é inacessível ao poder do mal. Portanto, alimente-se bem, na medida em que seu corpo necessitar (sem excessos, é claro!), e durma com moderação. Assim, você não terá uma opinião elevada de si mesmo, mas se repreenderá por negligência — e este é o caminho para a humildade.


Hieromonge Mikhail (Pitkevich):


Jejuar significa contenção, não se desgastar.


O principal no jejum é o coração quebrantado com sincero arrependimento e humildade. Um coração quebrantado e humilde, Deus não desprezará (Salmo 50:19). Você vive no mundo; precisa de força — não se entregue aos prazeres, não busque iguarias, não se permita excessos; e se por necessidade você tiver que comer um ovo ou beber leite durante o jejum, o Senhor não exigirá isso de você, nem considerará como pecado. Por mais rigorosamente que você observe o jejum — mesmo o mais rigoroso — se for sem verdadeiro arrependimento, não será aceito pelo Senhor. Tal jejum não levará à salvação nem à consolação. O principal é purificar o coração por dentro.


Arquimandrita Zosima (Sokur):


A comida não nos separa de Deus, nem nos aproxima Dele. Mas, já que a Igreja nos ordenou a jejuar, isso significa que devemos jejuar ou não? Devemos. Comam alimentos permitidos pelo jejum para a glória de Deus, comam o quanto quiserem, não há motivo para se privar de comida. Vocês acham que serão salvos passando fome? Absolutamente não, vocês andarão por aí com raiva e será horrível de se ver. Portanto, que tudo seja feito com moderação, pois não devemos nos saciar, e a gula é um pecado; mas não há motivo para passar fome. É fácil perder as forças e enfraquecer, mas é difícil se recuperar. Especialmente porque já somos tão fracos e debilitados espiritual e fisicamente. O jejum cura, mas comer em excesso, é claro, nos destrói. Portanto, deve haver prudência em tudo.

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Seja radiante... O Evangelho diz, alegre, que você deve ungir o rosto com óleo — seja brilhante e lave-se. Seja limpa, alegre, e ninguém suspeitará que você está jejuando; mas interiormente, na alma, mantenha o jejum e a tristeza pelos seus pecados. Pronto. É melhor que você coma algo e seja uma senhora bondosa, gentil, afetuosa e boa; mas não seja uma serpente sibilante.

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A Quaresma é um tempo especial de oração, vida piedosa e preparação para a Páscoa. "E concedei-nos, Senhor, passar o tempo da Santa Grande Quaresma e alcançar a Divina Paixão e a Ressurreição de Cristo." Que alegria! A Igreja nos traz a notícia não da quarentena, mas da Ressurreição de Cristo.

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Nossos avós leram a Escada de São João Clímaco durante todo o Grande Jejum. E aprenderam o caminho que cada um de nós deve trilhar, a Escada espiritual para o Reino dos Céus. Irmãos, leiam a Escada em seu tempo livre.

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Ó Senhor, dá-nos sabedoria em todas as coisas! O jejum completa qualquer obra de ascetismo; precisamos pedir a ajuda de Deus para que não sejamos orgulhosos, pensando: “Nós jejuamos”...


Arquimandrita João (Krestiankin):


Não compreendemos e aceitamos suficientemente em nossos corações o que nos é exigido, o que o jejum nos dá e nos promete. O que ele exige? O jejum exige de nós arrependimento e correção de vida. O que ele dá? Perdão completo e o retorno de todas as misericórdias de Deus. O que ele promete? Alegria no Espírito Santo aqui e bem-aventurança lá, na eternidade. Vale a pena aceitar tudo isso não apenas com uma mente fria, mas com um coração vivo e fervoroso.

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Ao iniciarmos os Quarenta Dias Sagrados, antes de nos apresentarmos diante de Deus em arrependimento pelos nossos pecados, devemos reavivar em nossos corações a lei salvadora: “Perdoai, e sereis perdoados”. Esta é a única condição sem a qual não pode haver perdão para nós. Se o nosso trabalho e esforço quaresmal não forem em vão, hoje todos devemos compreender que a nossa oferta pode ser rejeitada por Deus por um único motivo: não cumprimos o chamado ao amor; não nos reconciliamos; não perdoamos do fundo do nosso coração.


Arquimandrita John (Maslov):


Devemos passar os Santos Quarenta Dias em vigilância espiritual, amor e humildade de espírito, e de todo modo nos afastarmos dos pecados. Somente permanecendo nesse estado espiritual seremos capazes de contemplar em nossos próprios corações Cristo Ressuscitado, o Salvador.

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Aqueles que são fisicamente fracos, assim como os saudáveis, têm uma obrigação especial durante os jejuns de se manterem espiritualmente abstinentes do pecado e de praticarem obras de amor e misericórdia. Um verdadeiro jejum é a abstinência do mal. O jejum é um meio para a iluminação repleta de graça.


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