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O Mito da Civilização “Judaico-Cristã”

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    Resposta Ortodoxa
  • há 2 horas
  • 9 min de leitura


Os evangélicos americanos têm defendido ferozmente o sionismo cristão e a noção de “civilização judaico-cristã”.


Essa ideologia trata o judaísmo rabínico como precursor ou parceiro do cristianismo, em vez de um afastamento dele. E faz isso, em parte, para justificar um apoio irrestrito ao moderno Estado de Israel.


Esses erros distorcem tanto o Evangelho quanto a história sagrada. Eles também alimentam agendas políticas que levam à perseguição de cristãos na Terra Santa.


Cristo: O Deus de Israel


Um exemplo marcante dessa confusão surgiu recentemente em um tuíte do comentarista conservador Dinesh D’Souza: “O problema com a Teologia da Substituição¹ é que ela substitui o Deus de Israel, o Deus do Antigo Testamento. Esse é Deus Pai, a primeira pessoa da Trindade. Deus Pai é substituído, restando apenas o Filho e o Espírito Santo. Isso não é cristianismo!”


A afirmação de D'Souza revela um equívoco fundamental sobre a teologia trinitária. O Deus do Antigo Testamento não é “o Pai”. O Deus revelado nas Escrituras Hebraicas é a Santíssima Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo — eternamente uno em essência e indivisível.


A Trindade não surgiu na Encarnação. Ela sempre existiu. Os Padres Capadócios ensinaram que Deus é três Pessoas em uma natureza divina desde a eternidade. O Antigo Testamento sugere essa pluralidade: em Gênesis 1:26, Deus diz: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. Da mesma forma, em Isaías 6:3, os serafins clamam: “Santo, Santo, Santo” — três vezes, prenunciando o Deus Trino.


Além disso, as teofanias (isto é, manifestações diretas de Deus no Antigo Testamento) não são aparições de Deus Pai. Não: elas são da Segunda Pessoa da Trindade, o Logos pré-encarnado, que se encarnaria como Jesus Cristo. Isso é crucial. Como Cristo diz, ninguém jamais viu o Pai (João 1:18). Portanto, esses encontros não podem ser com a Primeira Pessoa da Trindade.


As provas bíblicas abundam para a identidade de Cristo como o Deus de Israel. Em João 8:58, Jesus declara: “Antes que Abraão existisse, EU SOU”, ecoando a auto-revelação de Yahweh a Moisés em Êxodo 3:14 como “EU SOU O QUE SOU”. Essa afirmação indignou tanto seus ouvintes que eles procuraram apedrejá-lo por blasfêmia, reconhecendo-a como uma afirmação de sua divindade. O apóstolo Paulo reforça isso em 1 Coríntios 10:4, identificando a Rocha que seguiu Israel no deserto como o próprio Cristo.


Essa tem sido a visão da Igreja desde os primeiros séculos, como evidenciado pelos escritos dos Padres da Igreja. São Justino Mártir, em seu Diálogo com Trifão, zomba daqueles que acreditam que as teofanias do Antigo Testamento se referem à Primeira Pessoa:


"Aquele que possui um mínimo de inteligência não se atreverá a afirmar que o Criador e Pai de todas as coisas, tendo deixado todos os aspectos supracelestiais, era visível em uma pequena porção da terra."

Em vez disso, São Justino argumenta que o Anjo do Senhor que lutou com Jacó e apareceu na sarça ardente era (e é!) Deus Filho.


Santo Irineu de Lyon, em Contra as Heresias, explica que o Filho é Ele mesmo a manifestação visível do Pai invisível. Expondo João 1:18, Santo Irineu declara:


"Nem Moisés, nem Elias, nem Ezequiel (que tiveram muitas visões celestiais) viram Deus. O que eles viram foram semelhanças do esplendor do Senhor e profecias das coisas que estavam por vir. É evidente que o Pai é realmente invisível, de quem também o Senhor disse: 'Ninguém jamais viu a Deus'. Mas Sua Palavra [ou seja, o Logos], como Ele mesmo quis, e para o benefício daqueles que a contemplavam, revelou o brilho do Pai e explicou Seus propósitos."

As Escrituras e os Padres deixam bem claro: o Deus do Antigo Testamento é a Santíssima Trindade. Além disso, a Pessoa mais intimamente conhecida pelo antigo Israel não era o Pai, mas o Filho.


Cristãos: A Semente de Abraão


Outra voz proeminente, o ex-governador Mike Huckabee, ecoou esse pensamento confuso em um tweet recente: “Minha fé cristã é construída sobre os alicerces do judaísmo e, sem ele, o cristianismo não existiria”.


Esse sentimento, embora bem-intencionado, inverte a ordem divina. Do ponto de vista ortodoxo, o cristianismo não “surgiu” do judaísmo como se fosse um ramo secundário. No entanto, ele também não substitui o judaísmo. Em vez disso, o cristianismo é a religião do Antigo Testamento levada à plenitude na pessoa de Jesus Cristo, a plena revelação de Yahweh.


A Antiga Aliança, dada por meio de Moisés, apontava para o Messias. Quando Cristo veio, Ele cumpriu a Lei e os Profetas (Mateus 5:17), estabelecendo a Nova Aliança com Seu sangue (Lucas 22:20). Parte desse cumprimento foi a inclusão dos gentios, conforme profetizado em Isaías 49:6: “Também te dei para luz dos gentios”.


Assim, a “semente de Abraão” não se limita ao Israel étnico, mas abrange todos os que estão em Cristo pela fé (Gálatas 3:29, cf. Gênesis 12:3). São Paulo declara em Gálatas 3:7: “Os que são da fé são filhos de Abraão”. Em Romanos 9:6-8, ele distingue entre descendentes físicos e os verdadeiros “filhos da promessa”. A Igreja, portanto, é o Novo Israel, o “Israel de Deus” (Gálatas 6:16), composto por judeus e gentios unidos no batismo.


O que hoje chamamos de “judaísmo” é mais precisamente conhecido como judaísmo rabínico. Esta é uma tradição relativamente moderna, que surgiu após a destruição do Segundo Templo em 70 d.C. Ela foi moldada pelos rabinos que rejeitaram Jesus como Messias, quebrando a Aliança, conforme predito em Daniel 9:27 e Oséias 3:4-5. Essa rejeição levou a uma nova seita — distinta da fé bíblica de Abraão, Moisés e dos profetas.


Infelizmente, foi essa apostasia que Cristo previu quando disse: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto." (João 15:1-2). Da mesma forma, São Paulo, quando imagina os gentios dizendo: “Os ramos foram quebrados para que eu fosse enxertado” (Romanos 11:19).


No entanto, a misericórdia de Deus perdura. Os judeus rabínicos podem ser restaurados à Aliança reconhecendo Cristo como seu Messias e entrando em Sua Igreja por meio do batismo.


A Igreja: o Reino de Deus na Terra


Huckabee amplia sua afirmação: “Sem a cosmovisão judaico-cristã, não haveria civilização ocidental e, sem a civilização ocidental, não haveria os Estados Unidos”. Essa narrativa decorre da premissa falha de que o judaísmo rabínico precede ou sustenta o cristianismo.


Na verdade, o que chamamos de “civilização ocidental” deve suas bases ao cristianismo — a religião do Antigo e do Novo Testamento. Não é preciso dizer que os judeus também contribuíram para essa civilização! Mas também contribuíram pagãos, ateus, etc. Isso não muda o fato de que o judaísmo rabínico, como religião, não exerceu nem de longe a mesma influência sobre a civilização ocidental que o cristianismo exerceu.


Em um editorial recente, argumentei que o “sionismo cristão” [abaixo] é uma heresia. Pior do que isso, ele leva os evangélicos a ignorar — ou até mesmo aplaudir — a destruição das comunidades cristãs nativas da Terra Santa. E por quê? Por um senso equivocado de dever para com o Estado de Israel. Esses evangélicos deveriam lembrar: a Igreja — e somente a Igreja — é o Reino de Deus na Terra.


Da mesma forma, o judaísmo rabínico não possui status privilegiado na teologia cristã ortodoxa. É semelhante ao samaritanismo, ao islamismo ou ao bahá'í: religiões não cristãs que afirmam ser descendentes de figuras do Antigo Testamento.


Espero que isso seja óbvio, mas essa perspectiva não deve justificar a perseguição ou a marginalização dos judeus. Como cristãos ortodoxos, somos ordenados a amar ao próximo, honrando a imagem de Deus em cada pessoa. (A história da civilização cristã inclui trágicas falhas nesse aspecto.)


Aqueles que podem ser tentados pelo ódio aos judeus deveriam estudar a vida e os escritos de Santa Maria de Paris e de outros santos ortodoxos que deram suas vidas defendendo judeus durante a Segunda Guerra Mundial.


No entanto, não podemos permitir que esses novos erros — nascidos do dispensacionalismo do século XIX e da geopolítica moderna — nos induzam ao erro.


Jesus Cristo é o Deus de Israel, e a Igreja é o Seu Reino na Terra. Não há outro Deus; não há outro Reino.


***


O Sionismo Cristão é uma Heresia


Em 17 de janeiro de 2026, o Conselho de Patriarcas e Chefes das Igrejas em Jerusalém — incluindo o Patriarca Ortodoxo Grego Teófilo III — divulgou uma declaração conjunta intitulada "Declaração dos Patriarcas e Chefes das Igrejas na Terra Santa sobre a Unidade e Representação das Comunidades Cristãs na Terra Santa". Nela, condenam explicitamente "ideologias prejudiciais, como o sionismo cristão", declarando que as atividades recentes de indivíduos que o promovem "enganam o público, semeiam confusão e prejudicam a unidade do nosso rebanho". 


O Conselho também publicou recentemente um relatório alertando para “ameaças ao patrimônio cristão — particularmente em Jerusalém, na Cisjordânia ocupada e em Gaza, juntamente com questões de tributação injustificada”. Tais violações “são a origem de preocupações constantes que ameaçam a existência da comunidade e das igrejas”, adverte o Conselho. O relatório prossegue falando da “necessidade urgente de proteger as comunidades cristãs e nossos locais de culto em toda a Cisjordânia, onde os ataques de colonos têm como alvo crescente nossas igrejas, pessoas e propriedades”.


Esta declaração representa uma intervenção rara e unificada dos guardiões do berço do cristianismo. Durante anos, os líderes cristãos orientais — ortodoxos, católicos e outros — relutaram em emitir críticas tão diretas ao sionismo cristão. O receio era palpável: qualquer condenação poderia ser distorcida nos meios de comunicação e círculos políticos ocidentais como apoio tácito a grupos militantes como o Hamas, isolando ainda mais a já vulnerável população cristã palestina em meio à escalada da violência, dos deslocamentos e das pressões demográficas. 


Contudo, a situação tornou-se tão grave que o silêncio já não é uma opção. Esta carta é um apelo desesperado, um alerta aos cristãos ocidentais, em particular aos evangélicos americanos. Ela os exorta a rejeitar (o que a tradição ortodoxa considera) uma grave heresia que distorce o Evangelho e mina o testemunho da Igreja.


O sionismo cristão compreende fundamentalmente mal o povo da aliança de Deus. A verdade central do Novo Testamento é que a própria Igreja é Israel — a verdadeira continuação e cumprimento espiritual das promessas de Deus a Abraão. Isso não significa rejeitar as raízes judaicas do cristianismo, mas sim reconhecer que, em Cristo, a aliança foi universalizada, abrangendo todos os que creem.


São Paulo deixa isso abundantemente claro em sua Epístola aos Gálatas: Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa." (Gálatas 3:28-29). Paulo insiste que a herança não flui por descendência étnica ou circuncisão carnal, mas pela fé em Cristo, que é a única Descendência de Abraão (Gálatas 3:16). 


Da mesma forma, em sua Epístola aos Romanos, ele emprega a metáfora da oliveira para mostrar um povo de Deus contínuo. Ramos incrédulos, como alguns judeus étnicos, podem ser quebrados; gentios crentes são enxertados; contudo, a raiz — os Patriarcas Justos — continua a florescer. “Não se gloriem contra os ramos”, adverte ele. “Mas, se se gloriarem, lembrem-se de que não são vocês que sustentam a raiz, mas a raiz que os sustenta” (Romanos 11:18). 


O “Israel de Deus” (Gálatas 6:16) é a Igreja, a nova comunidade da aliança onde as distinções étnicas não definem mais o status da aliança.


Os Padres da Igreja, naturalmente, seguem o entendimento de Paulo. Por exemplo, São Justino Mártir, em seu Diálogo com Trifão , declara:


“Assim como Cristo é o Israel e o Jacó, também nós, que fomos extraídos das entranhas de Cristo, somos a verdadeira raça israelita”. 

Da mesma forma, Santo Irineu de Lyon, em Contra as Heresias , explica:


“A Igreja é a semente de Abraão; e por esta razão, para que saibamos que Aquele que no Novo Testamento 'faz surgir dentre as pedras filhos para Abraão', é Aquele que reunirá, segundo o Antigo Testamento, aqueles que serão salvos dentre todas as nações.”

Ao postular que o Estado moderno de Israel mantém um papel distintivo e irrevogável no sionismo cristão, separado da Igreja, isso reintroduz uma divisão que o Novo Testamento aboliu. É uma heresia judaizante, muito semelhante àquela enfrentada pelos apóstolos no Concílio de Jerusalém (cf. Atos 15). Também politiza a escatologia, transformando o apoio a um Estado-nação em um suposto mandato bíblico. E isso, como adverte o Concílio, frequentemente leva os cristãos ocidentais a ignorar ou mesmo justificar injustiças contra nossos irmãos na Terra Santa.


Os evangélicos americanos não são conhecidos por dar muita importância à patrística ou aos patriarcas. No entanto, a Bíblia por si só deixa bem claro: a Igreja Cristã, e não o Estado sionista, é o verdadeiro “Israel de Deus”. Que o apelo profético e sincero do Conselho amoleça os corações de nossos amigos cristãos sionistas. Que eles abandonem essa heresia desprezível — mas sem diminuir seu zelo, levando-os a se levantar em defesa da Igreja dos Mártires na Terra Santa.


Autor: Michael W. Davis


1] "Teologia da Substituição" é como a teologia protestante se refere ao ensino antigo da Igreja, de que a Igreja é a continuação de Israel e povo escolhido de Deus. Na teologia ortodoxa o conceito não é propriamente uma substituição em si. Isso é bem explicado em outro artigo: A Igreja Substituiu Israel?


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