Jesus Nasceu Realmente no Dia 25 de Dezembro?
- Resposta Ortodoxa

- 23 de dez. de 2025
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A Natividade de Cristo, o Natal, é uma das Grandes Festas da Igreja. Ela ocupa o segundo lugar na lista das principais datas, sendo superada somente pela Santa Páscoa, a Ressurreição de Nosso Senhor.
Embora seja um período de festa e alegria em reconhecimento à Encarnação de Cristo, a data passou a ser alvo de ataques, tanto de céticos anticristãos quanto por algumas vertentes protestantes e grupos pseudocristãos.
No Oriente, a Natividade de Cristo não era uma data celebrada, muito embora os cristãos já reconheciam a importância da Encarnação de Cristo para a salvação da humanidade, como afirmou Santo Atanásio, o Grande:
“O Verbo se fez homem para que a humanidade pudesse ser deificada”.
A instituição da festa da Natividade, dedicada à comemoração e glorificação do nascimento do Senhor Jesus Cristo como ser humano, como um feriado separado e independente, não fazia parte da tradição. No início, os cristãos celebravam a Epifania no dia 6 de janeiro, que incluía à manifestação de Deus na carne, abrangendo tanto o nascimento de Cristo quanto o evento do Seu Batismo no Jordão. O tema do nascimento de Cristo era central para a festa da Epifania.
Também, por herdarem a visão do Antigo Testamento, que via o dia do nascimento como o dia do início do sofrimento [o que explica, essa sim, a comemoração da morte dos fiéis para a verdadeira vida], os cristãos orientais não abraçaram imediatamente o significado missionário da festa da Natividade de Cristo.

A data da Natividade como evento separado em 25 dezembro, só foi possível no oriente graças a três grandes Padres da Igreja que desempenharam um papel decisivo nisso: São Basílio Magno, São Gregório, o Teólogo, e São João Crisóstomo. São Basílio Magno († 379) foi o primeiro a celebrar o Natal do Messias em 25 de dezembro na Capadócia, entre 371 e 374. Sob sua influência, São Gregório, o Teólogo († 390), introduziu esta festa em Constantinopla. São João Crisóstomo († 407) fundou a celebração da Natividade de Cristo em Antioquia em 386 ou 388.
Em seu sermão de 25 de dezembro, glorificando o nascimento de Jesus Cristo, ele expressa sua alegria pela celebração:
“Há muito tempo desejei ver este dia, e não apenas vê-lo, mas também celebrá-lo com tamanha multidão de pessoas. Rezei incessantemente para que nossa reunião fosse tão numerosa quanto a vemos agora, o que aconteceu e se concretizou. Embora este dia ainda não nos fosse conhecido há dez anos, tornou-se famoso graças aos seus esforços, como se nos tivesse sido transmitido há muitos anos. Portanto, não seria um erro chamar esta festa de nova e antiga — nova porque recentemente se tornou conhecida por nós, e antiga porque rapidamente igualou as mais antigas e cresceu até o mesmo nível que elas.”
A data só foi estabelecida no oriente após os decretos de Justiniano I em 560/561. Ainda que o imperador, em si, não tenha estabelecido a data do Natal, mas seu reinado foi um período crucial para a consolidação da celebração do Natal em 25 de dezembro em todo o Império Bizantino, incluindo a Palestina e Jerusalém, onde a festa havia surgido um pouco antes. A carta “Sobre as Festas”, redigida como um decreto brando, só foi executada após a morte de Justiniano.
De acordo com a informação de Nicéforo Calisto, o imperador Justiniano apenas emitiu o decreto e seu sucessor, Justino II (565-578), confirmou a celebração do Natal em todo o império em 25 de dezembro. A Igreja Armênia e algumas outras igrejas mantiveram um calendário arcaico que não reconhece especificamente a Natividade de Cristo nesta data.
Os registros mais antigos de um dia específico para a Natividade são encontrados somente no ocidente, na Igreja de Roma, no século II. Abrangendo tanto a especulação acerca da data como a observação da festa em si.
Existe, entretanto, uma polarização moderna que surge sempre neste período que não vem de hoje, mas tem sua origem após o Iluminismo. Hoje, num mundo pós-cristão, a prática religiosa e a observação de datas cristãs são alvo de controvérsias e deturpações históricas, seja para descredibilizar a fé cristã ou para combater quaisquer resquícios de “catolicismos” ou “tradição”. Por isso, em qualquer menção ao Natal, surgem variadas objeções.
“O Natal tem resquícios de paganismo devido à Saturnália que era comemorada no dia 25 de dezembro”
A Saturnália era um festival pagão romano, em honra a Saturno, deus da agricultura. A celebração ocorria no solstício de inverno. Entretanto, a data do festival ocorria a partir do dia 17 e, geralmente, encerrava no dia 23. Não há uma relação direta entre a Saturnália e o Natal, a não ser por uma narrativa antinatalista forçada.
“Os cristãos escolheram o dia 25 para substituir o Sol Invictus”.
É mais provável que tenha sido ao contrário. A celebração do Sol Invictus não tinha uma data específica. Sol Invictus foi um título dado a diversas divindades solares no Império Romano tardio, seja uma divindade qualquer ou imperador específico. Por um tempo, seu culto caiu em desuso.
O pesquisador Steven Hijmans, em seu artigo “Sol Invictus, the Winter Solstice, and the Origins of Christmas”, conclui que o festival do Sol Invictus pode não ter sido identificado com 25 de dezembro até depois da primeira celebração do Natal nesse dia. Ou seja, a data em si não era identificada com nenhuma celebração pagã antes dos cristãos estabelecerem o dia da Natividade, mas que foi "redescoberto" por autoridades pagãs em resposta à apropriação do solstício de inverno pelo cristianismo.

Como foi dito, há registros antigos dos cristãos no ocidente se referindo ou observando o dia 25 como o dia da Natividade. É somente no ano 274 d.C., que o Imperador Aureliano retoma a celebração do Sol Invictus, escolhendo o dia 25 como data da celebração pagã.
Uma tentativa de encobrir a celebração dos cristãos que começava crescer rapidamente no Império? Não podemos ser taxativos, mas também não se pode negar o indício.

Depois de Aureliano, a celebração mais uma vez cai em desuso, mas retorna com o Imperador Juliano, o Apóstata. Neste, sim, vemos a tentativa de extinguir a celebração cristã com a instituição de um culto pagão. Juliano foi criado como cristão, mas ao assumir o império toma medidas para a restauração do paganismo. Além de proibir o ensino cristão, em lugar do já estabelecido dia da Natividade de Cristo dentro do império já cristianizado, Juliano revoga a Natividade para celebrar o Sol Invictus.
"Os pastores não poderiam estar no campo com os rebanhos no inverno"
Uma outra objeção comum ao dia 25 como dia da Natividade, é a argumentação de que dezembro, na Palestina, seria impossível que os pastores estivessem no campo com seu rebanho, por ser inverno.
Este argumento assume que as condições climáticas em Jerusalém são similares às da Europa e outros climas ao norte. No entanto, a temperatura média da região tem máximas diárias em torno de 14ºC, com variações entre 7ºC e 21ºC. Um clima predominantemente mediterrâneo.
Em muitas passagens nas Escrituras podemos constatar a possibilidade de pastores cuidar de seus rebanhos em dias de inverno. Abraão, Isaque e Jacó viveram o ano inteiro em tendas [Heb. 11.9; Gn. 12.8; 13.3; 18.1-9], assim como fizeram muitos hebreus durante séculos, depois de conquistar Canaã [Jz.4.18; Jr. 35.7, 10]. A Escritura relata um episódio onde Jacó vigiava os rebanhos de Labão durante às noites de geada no inverno [Gn. 31.40].
Além de tudo isso, todos os anos a Igreja celebra o dia da Natividade, em Belém, com serviços e procissões. O evento central é a Liturgia da Meia-Noite, na Igreja da Natividade, em Belém. Presidida pelo Patriarca Ortodoxo de Jerusalém, o evento também conta com uma grande procissão em volta da Praça da Manjedoura.
As imagens abaixo mostram como o clima é perfeitamente adequado para qualquer atividade ao ar livre, assim como as procissões de Natal realizadas pela Igreja:



Vale acrescentar que a Festa da Natividade é celebrada em três datas diferentes: 25 de dezembro [Calendário gregoriano] para católicos romanos e protestantes históricos; 7 de janeiro [Calendário Juliano] para os ortodoxos e 19 de janeiro para os armênios. Em todos esses dias de festividade não há empecilhos com nevascas e frio extremo.
A Divisão do Turno no Templo
Um dos cálculos utilizados para estabelecer a data da Natividade é por meio da divisão dos turnos de serviços do Templo. De acordo com um especialista da Universidade Hebraica de Jerusalém, Shemaryahu Talmon, suas pesquisas sobre os manuscritos de Qumram o levou a reconstituir a escala semanal dos 24 turnos de serviço no Templo.
Em Lucas 1.15, vemos que o anúncio da concepção de São João Batista aconteceu enquanto seu pai, Zacarias, sacerdote no Templo de Jerusalém, queimava incenso no altar. Em I Crônicas 24, lemos quando são estabelecidas divisões sacerdotais para serviço no Templo. Zacarias pertencia à oitava divisão de Abias. De acordo com as pesquisas de Talmon, entre os manuscritos de Qumram, o calendário e a escala de serviços que estavam em uso no tempo de Jesus, apontavam uma segunda escala do turno de Abias entre os dias 24 a 30 de setembro. A concepção de São João Batista ocorre logo após este período, possivelmente, próximo ao Yom Kippur [Dia do Arrependimento, de acordo com a mensagem de arrependimento de São João].
A partir disso, outro cálculo antigo seria por meio da concepção de São João Batista. No Calendário Litúrgico da Igreja, comemoramos a concepção de São João Batista no dia 23 de setembro. Como sabemos por meio das Escrituras, São João era seis meses mais velho que Jesus. Seis meses depois da concepção de São João, comemoramos a Anunciação da Mãe de Deus, a concepção de Cristo, no dia 25 de março. Três meses depois, comemoramos o nascimento de São João Batista, em 24 de junho. E seis meses depois, em 25 de dezembro, a Natividade de Cristo.
A conclusão desta pesquisa do calendário e escala da divisão de serviço no Templo nos manuscritos de Qumram por Talmon, estão disponíveis no artigo “The Calendar Reckoning of the Sect From the Judean Desert”.
Como foi dito, as evidências para a data da Natividade no dia 25 de dezembro são muito antigas na Igreja. Um texto atribuído a São Teófilo, bispo de Antioquia [171-183 d.C.], quase contemporâneo aos últimos apóstolos, diz que:
“Devemos comemorar o aniversário de Nosso Senhor: a cada 25 de dezembro isso deve ser feito”.
Em 202 d.C., comentando a respeito do livro de Daniel, Hipólito, bispo de Roma, faz a seguinte afirmação:
“O Primeiro Advento de Nosso Senhor em carne, quando Ele nasceu em Belém, foi em 25 de dezembro... Ele padeceu no 33º ano, 25 de março, sexta-feira, no 18º ano de Tibério César, enquanto Rufus e Rubélio eram cônsules”.
Conclusão

A data do nascimento de Cristo é estudada há séculos. É um trabalho difícil e complexo, tentar conciliar diferentes calendários, com tipos diferentes de medidas como solares ou lunares, os cálculos dos anos bissextos com a sincronização de registros históricos de imperadores e governadores, é inegavelmente extenuante.
Entretanto, o significado da Encarnação na linha do tempo e na história da humanidade, é um evento tão grandioso e inexplicável que, simplesmente negar a sua comemoração, motivado por sensibilidades anticatólicas ou por narrativas contra um suposto resquício de paganismo, se torna bastante obtuso e ingênuo.
Ainda que os cristãos substituíssem qualquer festividade pagã e cristianizasse seu significado, o que de fato aconteceu em muitos momentos da história do Cristianismo, isso só denotaria a vitória de Cristo sobre os falsos deuses deste mundo.
O que concluímos é que a polarização moderna sobre esse assunto tende a simplificar bastante uma questão complexa, debatida há anos. A questão sobre quem influenciou quem ou se os cristãos simplesmente transformaram uma festa pagã em celebração cristã, é uma leitura bastante rasa. Em um mundo paganizado, com o Cristianismo em ascensão, seria natural que a cultura local influenciasse um e outro grupo. Tanto é assim que alguns padres da Igreja admoestavam os cristãos a não participarem das festas pagãs "trocando presentes", acendendo fogueiras ou participando do "aniversário de algum ídolo", quando "toda pompa do diabo é frequentada" — como escreveu Tertuliano em "Sobre a Idolatria".
Leão I (440-461 d.C.) foi repetidamente obrigado a admoestar os fiéis a não venerarem o sol nas próprias portas da antiga Basílica de São Pedro, em Roma, que era orientada para o leste, de modo que o sol iluminasse a abside.
“Desse sistema de ensino decorre também a prática ímpia de certas pessoas insensatas que adoram o sol quando ele nasce, no início do dia, em posições elevadas: até mesmo alguns cristãos acham tão apropriado fazer isso que, antes de entrar na basílica do bem-aventurado apóstolo Pedro, dedicada ao único Deus vivo e verdadeiro, quando sobem os degraus que levam à plataforma elevada, eles se viram e se curvam em direção ao sol nascente e, com o pescoço inclinado, prestam homenagem ao seu brilhante astro. Estamos cheios de tristeza e irritação por isso acontecer, o que se deve em parte à ignorância e em parte ao espírito do paganismo: porque, embora alguns deles talvez adorem o Criador dessa bela luz em vez da própria Luz, que é Sua criatura, devemos abster-nos até mesmo da aparência dessa observância: pois se alguém que abandonou a adoração dos deuses a encontra em nossa própria adoração, não voltará ele novamente a esse fragmento de sua antiga superstição, como se fosse permitido, quando vê que é comum tanto aos cristãos quanto aos infiéis? — Sermão XXVII: Na Festa da Natividade, VII
Não se trata de simples apropriação cultural. A Igreja passa a debater internamente a questão do nascimento do Cristo por meio de cálculos cronológicos desde os primeiros cristãos e, posteriormente, passa a enxergar a realidade pagã ao seu redor sob uma perspectiva simbólica e teológica muito próprias. Dessa forma, a luz do solstício e dos deuses solares, passam a ser vistos através de Cristo, a Verdadeira Luz do mundo e o Sol da Justiça. Assim como nos ensina São João Crisóstomo, que conhecimento profano e as artes mágicas dos adoradores das estrelas se enceraram após uma estrela [sobrenatural] ensiná-los a adorar a verdadeira estrela, o Sol da Justiça.
Longe de ser uma cópia ou plágio, como apontam os detratores da Natividade, era isto o Logos Spermatikos, a Semente do Verbo, ou centelhas de verdades no mundo que apontavam para Cristo. Nas coincidências inevitáveis dos cristãos com os pagãos, a ressignificação de símbolos ou a cristianização da cultura era algo irremediável.
Um grande historiador e teólogo da Igreja, Profº Vasily Vasilyevich Bolotov, diz que ao estabelecer as datas das celebrações, a Igreja frequentemente se guiava por suas próprias considerações específicas, didáticas e missionárias; mas que também tinha em mente a superação de certas tradições locais e resquícios de costumes anteriores.
"O paganismo, contra o qual a Igreja luta, não é apenas uma religião, mas também um modo de vida estabelecido de certa forma. Provar ao pagão a inconsistência de suas crenças sobre os deuses e convencê-lo a acreditar no Deus Único Cristão significa muito, mas ainda não é tudo. O recém-convertido não tinha como romper suas relações cotidianas com os vizinhos pagãos. Era preciso protegê-lo de uma recaída, e os feriados ocupavam quase o lugar principal entre os instrumentos com os quais o paganismo rejeitado podia travar uma guerra de resistência contra o cristianismo em ascensão. Ao instituir seus feriados nos dias dos feriados pagãos, a Igreja tirou das mãos do politeísmo um dos últimos meios de defesa. Estabelecer um feriado cristão no dia de um feriado pagão significava convocar os cristãos à igreja e colocá-los sob a influência de tais lembranças que, para muitos, tornava-se psicologicamente impossível participar dos feriados pagãos."
Referências:
Sol Invictus and Christmas - Chicago.edu
Nativity of our Lord and Savior Jesus Christ - goarch.org
Рождество Христово - Российская академия наук
Эортология и богословие Рождества Христова - Архимандрит Матфей
Objections to Christimas and the Dec. 25th Birt of Christ Answered – Dec. 25th. info
Magdeburgenses, Cent. 2. c. 6. Hospinian, De origine Festorum Chirstianorum
Hipólito, Comentário sobre Daniel 4, 23





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